Contexto e gravação
Em janeiro de 1968, Caetano Veloso lançou seu primeiro LP solo, com 25 anos. Ele já tinha um disco anterior, Domingo, feito com Gal Costa, mais ligado à bossa nova. Este era outra coisa. A Rolling Stone Brasil, em texto de 2023, descreve o artista se afastando da bossa e atraído pelas guitarras elétricas.
O caminho até o disco passa por um festival. Em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, Caetano defendeu “Alegria, Alegria” com os Beat Boys e ficou em quarto lugar, enquanto Gilberto Gil, com “Domingo no Parque” e os Mutantes, ficou em segundo, segundo a Wikipédia sobre o Tropicalismo. Os dois foram vaiados por usar guitarra elétrica, instrumento que parte do público associava à cultura norte-americana. A Rolling Stone Brasil diz que o compacto de “Alegria, Alegria”, lançado em novembro de 1967, vendeu 100 mil cópias, e a versão em inglês da Wikipedia afirma que o álbum foi gravado para aproveitar o sucesso dessa canção.
A página em português da Wikipédia situa a gravação em 1967, sem dar estúdio nem datas, e a ficha técnica da Rolling Stone Brasil também não traz essa informação. A Wikipedia em inglês igualmente não dá estúdio nem datas. Sobre a produção há uma divergência entre fontes: a Rolling Stone Brasil e a Wikipedia em inglês creditam Manoel Barenbein, enquanto a ficha da Wikipédia em português aponta Rogério Duprat. Este texto segue a primeira versão, que tem apoio de mais fontes, mas a divergência fica registrada.
Os arranjos são de Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen. Nem a Wikipédia em português nem a em inglês trazem a lista completa de músicos do disco; a em inglês nomeia só Caetano, na voz e no violão. A Rolling Stone Brasil cita participações pontuais: o grupo R7, de Roberto Carlos, em “Superbacana”, Gal Costa nos vocais de “Clara” e os Mutantes em “Eles”.
O título do disco nasceu de um acaso. A Rolling Stone Brasil conta que a primeira faixa se chamava “Mistura Fina” e ganhou o nome “Tropicália” por sugestão do cineasta Luiz Carlos Barreto, que se inspirou na instalação do artista plástico Hélio Oiticica. A imprensa depois usou o título da canção para batizar o movimento inteiro. Segundo a Wikipedia em inglês, Caetano não gostou disso.
Faixas de destaque
“Tropicália”
Abre o disco com 3 minutos e 40 segundos. É a música que deu nome ao movimento. Hélio Oiticica havia criado a obra-ambiência Tropicália em 1967 para uma mostra no Museu de Arte Moderna do Rio, segundo a Wikipédia, e a canção dialoga com esse universo.
“Alegria, Alegria”
Com 2:43, é a faixa que lançou o disco. A Wikipedia em inglês a chama de hino brasileiro de 1967. Foi com ela que Caetano subiu ao palco do festival da TV Record, acompanhado de guitarras elétricas, instrumento que provocou vaias naquele ano. Na gravação do disco, a canção segue curta e direta.
“Soy Loco por Ti, América”
Parceria de Gilberto Gil e Capinam, com 3:40. A Rolling Stone Brasil a descreve como um baião com salsa, cantado numa mistura de espanhol e português, em homenagem a Che Guevara. É uma das faixas mais políticas do repertório.
“Clara”
Tem Gal Costa nos vocais e um arranjo dissonante de Sandino Hohagen, segundo a Rolling Stone Brasil. A faixa dura 2:43 e mostra que o disco não se limitava a canções de festival.
“Eles”
Fecha o álbum, com 4:40, e conta com os Mutantes. A Rolling Stone Brasil a descreve como uma sátira à burguesia que mistura instrumentos indígenas e berimbau com rock psicodélico e coco. É a faixa mais longa do lado B e a mais experimental.
“Superbacana”
A faixa de 1:28 abre o lado B e é a mais curta do disco. Segundo a Rolling Stone Brasil, conta com o grupo R7, ligado a Roberto Carlos, ao lado de Caetano.
Recepção da crítica
O disco foi reconhecido sobretudo com o passar do tempo. Na lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil, de outubro de 2007, ocupa a 37ª posição, segundo a Wikipédia. O AllMusic deu cinco estrelas, e a versão em inglês da Wikipedia registra nota 9,4 do Pitchfork, sem indicar o ano nem o autor da resenha. Em 2001, o álbum entrou no Hall da Fama do Grammy Latino, conforme a Academia Latina da Gravação, citada pela Wikipédia em português, e consta no livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die, segundo a Wikipedia em inglês.
Há também a voz do próprio autor. A Wikipedia em inglês, citando as memórias Verdade Tropical (2002), diz que Caetano chamou o disco de amador e confuso. Na contracapa, segundo a Rolling Stone Brasil, ele escreveu que João Gilberto é um gênio e perguntou quem ousaria dedicar-lhe aquele disco. O gesto mostra que a ousadia do álbum convivia com a reverência à bossa.
Em entrevista a Zuza Homem de Mello, também citada pela Rolling Stone Brasil, Caetano disse que depois da bossa a MPB ficou discutindo tudo o que ela propôs, mas não saiu dessa esfera. A frase ajuda a entender a ambição do álbum.
Legado
Caetano Veloso não foi o único disco da Tropicália em 1968, mas foi o que apareceu primeiro. Em julho do mesmo ano saiu o disco coletivo Tropicália ou Panis et Circencis, que a Wikipédia descreve como o manifesto do movimento, e a canção “Tropicália” deu nome a ele. Gilberto Gil e Caetano foram depois alvo da repressão: segundo a Wikipédia, o movimento teve seu fim após o AI-5, de dezembro de 1968, e os dois foram presos em 1969, tiveram os cabelos raspados e foram soltos sob a condição de deixar o país, indo para Londres, onde ficaram até 1971.
O disco virou referência para quem queria misturar tradição e experimentação na música brasileira. Ele mostra uma ideia que ainda funciona: tratar a canção popular com liberdade, sem cerimônia, trazendo para ela o rock psicodélico, o baião e outros sons que a MPB de então evitava.
Como candidato a melhor álbum dos anos 1960, o disco tem um argumento forte e específico. Em pouco mais de 34 minutos, reúne um compositor em plena descoberta, arranjadores de vanguarda e algumas das canções que melhor explicam o que a década mudou na música brasileira. Os defeitos que o próprio Caetano apontou fazem parte do charme: é um registro de quem ainda está testando o que quer dizer.