O som de uma década sob vigilância
Os anos 1970 na música brasileira aconteceram em plena ditadura militar. Os cinco discos desta votação mostram como cada artista lidou com isso. Alguns falaram de política de frente. Outros apostaram na alegria, na poesia ou na sofisticação do arranjo.
A censura estava presente no dia a dia dos artistas. Em Construção, de 1971, Chico Buarque voltava de um exílio na Itália, iniciado em 1969 depois de uma peça sua ser considerada subversiva, segundo a uDiscover Music. O disco passou pelos censores, e a explicação apontada é a ambiguidade das letras e a beleza das melodias. Já “Samba de Orly” sofreu cortes. No caso de Clube da Esquina, a faixa “Ao Que Vai Nascer” foi alterada por causa da censura, de acordo com a Wikipédia.
Outro caminho foi o dos poemas. O Secos & Molhados, em 1973, musicou versos de nomes consagrados como Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira. O biógrafo Miguel de Almeida, citado pelo Correio Braziliense, defende que isso ajudou o grupo a escapar dos censores. O visual andrógino e a dança de Ney Matogrosso, porém, chamaram a atenção dos agentes.
Gravadoras, estúdios e sítios
A década também mostra formas diferentes de gravar. Construção saiu pela Philips, no Estúdio Phonogram, no Rio. Clube da Esquina foi feito em parte numa casa de praia em Niterói e em parte nos estúdios da Odeon, e a EMI-Odeon chegou a hesitar diante da ideia de um álbum duplo. Elis & Tom foi gravado em Los Angeles, nos estúdios da MGM, em 1974.
No outro extremo, Acabou Chorare nasceu num sítio em Jacarepaguá, onde um galinheiro virou estúdio, e saiu pela Som Livre. O Secos & Molhados, depois de ser recusado por outras gravadoras, assinou com a Continental, que apostou pouco e prensou cerca de 1.500 cópias iniciais. Elas acabaram em poucos dias, e o total chegou perto de um milhão em um ano.
Mudanças de som
O rock e a guitarra elétrica entraram de vez na canção brasileira. Os Novos Baianos misturaram samba, rock, cavaquinho e percussão, com a orientação de João Gilberto, de acordo com a Rolling Stone Brasil. O Clube da Esquina uniu influências que iam dos Beatles a Chopin, com orquestrações de Eumir Deodato e Wagner Tiso. Em Elis & Tom, César Camargo Mariano usou piano elétrico e cordas num gênero que até ali vivia de economia.
O tempo muda o julgamento
Nem sempre o público e a crítica concordaram. Acabou Chorare teve sucesso popular, mas só ganhou prestígio crítico com o passar dos anos. Em 2007, a Rolling Stone Brasil o elegeu o maior disco brasileiro. Clube da Esquina teve estreia negativa na imprensa brasileira e hoje lidera ou quase lidera listas, como a do podcast Discoteca Básica, de 2022, segundo a Wikipédia.
Por que estes cinco
Construção (Chico Buarque, 1971). Reúne a força das letras de Chico, os arranjos de Rogério Duprat e uma faixa-título que a Rolling Stone Brasil elegeu a maior canção brasileira. Disputa pelo peso de documento da época.
Acabou Chorare (Novos Baianos, 1972). Foi eleito o número um da lista da Rolling Stone Brasil de 2007. Disputa pela invenção de um som novo, feito de samba e rock, e pela alegria como resposta ao clima pesado.
Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972). É um duplo de 21 faixas, com a ambição de um projeto de grupo. Disputa pelo alcance, pelo lugar nas listas atuais e pela escola que criou.
Secos & Molhados (1973). Vendeu perto de um milhão de cópias e trouxe poesia, teatro e ruptura de imagem. Disputa pela força popular e pelo impacto cultural.
Elis & Tom (1974). Junta uma intérprete de peso com o compositor da bossa nova, em arranjos novos de César Camargo Mariano. Disputa pelo refinamento e pela relação entre tradição e modernidade.