Contexto e gravação
Em 1969, Chico Buarque foi para a Itália. A ditadura militar tinha considerado subversiva uma peça de teatro dele, e o compositor saiu do país por conta própria. Ficou cerca de catorze meses fora. Nesse período gravou e lançou discos por lá, entre eles Per Un Pugno di Samba, com versões italianas de suas canções e arranjos de Ennio Morricone, segundo a uDiscover Music. Parte do material de Construção nasceu nessa fase.
Chico voltou ao Brasil em 1970. Até ali, ele não era visto como um autor de choque. A mesma reportagem lembra que amigos como Caetano Veloso e Gilberto Gil chegaram a achar sua obra anterior um pouco conservadora. O disco de 1971 mudou essa imagem. O tom é mais sombrio, as imagens são mais duras, e a política entra de frente, sem perder a delicadeza que sempre marcou o compositor.
O álbum saiu em novembro de 1971 pela Philips, de acordo com a Wikipédia. A produção ficou com Roberto Menescal. A gravação aconteceu no Estúdio Phonogram, no Rio de Janeiro, com os técnicos Toninho e Mazola. A direção musical foi de Magro, o Antônio José Waghabi Filho, integrante do MPB-4. Os arranjos levam a assinatura de Rogério Duprat, nome de peso do tropicalismo, que escreveu partes simples e eficientes para contrastar com a densidade dos textos.
O disco tem convidados importantes. O MPB-4 canta em cinco faixas. Tom Jobim toca piano em “Olha Maria (Amparo)”. O Trio Mocotó faz a percussão de “Samba de Orly”, que também conta com o violão de Toquinho. Vinicius de Moraes assina parcerias em quatro canções: “Valsinha”, “Samba de Orly”, “Desalento” e “Olha Maria”. A capa é de Aldo Luz, com foto de Carlos Leonam.
São dez faixas e pouco mais de meia hora de música. É um disco curto, sem sobra. Cada canção tem função clara dentro do conjunto, e a ordem das faixas conduz o ouvinte da fartura aparente de “Deus Lhe Pague” até o silêncio quase de berço de “Acalanto”.
Faixas de destaque
Construção
A faixa-título tem pouco mais de seis minutos e ocupa o centro do disco. A história de um operário que sobe numa obra e morre na rua é contada em ciclos, com as palavras finais de cada verso trocando de lugar a cada volta. O arranjo de Duprat cresce aos poucos, com cordas e metais que sobem junto com a tensão. O efeito é o de uma máquina que gira e não para. Em 2001, uma enquete da Folha de S.Paulo colocou a canção em segundo lugar entre as melhores da música brasileira, atrás de “Águas de Março”, conforme a Wikipédia. A Rolling Stone Brasil, por sua vez, a elegeu a maior canção brasileira em lista própria.
Cotidiano
É a canção mais curta e mais cruel do conjunto. Em menos de três minutos, descreve uma rotina de casal que se repete todo dia, igual, sem espaço para surpresa. A melodia é leve, quase alegre, e é exatamente isso que machuca. O samba segue marcando o passo enquanto o assunto é o desgaste de quem vive no automático.
Cordão
Aqui o tema é a vigilância e a censura. A canção usa a imagem do cordão carnavalesco para falar de gente que decide sozinha, de jeito que ninguém consiga impedir. O andamento de marcha dá a ela um ar festivo, de rua, que torna o recado mais irônico. A Wikipédia a cita como exemplo da crítica do disco à censura do Estado.
Deus Lhe Pague
Abre o álbum com um agradecimento amargo, repetido de verso em verso. O MPB-4 aparece na faixa, e a mistura de vozes dá o tom de coro de procissão. Na abertura já se entende o método do disco: o refrão parece manso e a lista de agradecimentos vai ficando ácida.
Olha Maria (Amparo)
É a faixa com Tom Jobim ao piano, em parceria de Chico, Vinicius e Tom. O clima é de bossa madura, mais doce do que o resto do repertório. Serve de respiro, mas sem romper o tom geral, porque o assunto continua sendo a vida que não anda como se esperava.
Recepção da crítica
O disco chegou às lojas e vendeu bem. A uDiscover Music informa que foram 140 mil cópias no primeiro mês e que a Philips precisou usar duas fábricas de prensagem para dar conta da procura. A Fundação Perseu Abramo repete esse número de 140 mil e o descreve como inacreditável para a época.
A passagem pela censura é parte da história. Segundo a uDiscover Music, o álbum foi liberado, e a explicação está na ambiguidade das letras e na beleza das melodias. “Samba de Orly”, que trata do exílio de forma aberta, sofreu cortes, de acordo com a Wikipédia. Em 1973, numa entrevista citada pela mesma reportagem, Chico disse que a intenção original da faixa-título era menos militante do que a recepção fez parecer.
Na imprensa, o elogio veio logo. A Wikipédia registra que a revista Realidade escreveu em 1972 que o disco era “o melhor feito nos últimos vinte anos no Brasil”. Com o tempo, o prestígio só cresceu. O AllMusic deu cinco estrelas. Na lista dos 100 maiores discos brasileiros da Rolling Stone Brasil, de 2007, Construção ficou em terceiro lugar. Numa enquete de 2012 da Rádio Eldorado FM com o jornal O Estado de S. Paulo, aparece em sexto. O álbum também consta no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, segundo a Wikipédia.
Legado
Construção virou um documento de época. Quem quer entender como a música popular falava de opressão sem poder falar claro costuma passar por ele. A uDiscover Music o descreve como o ponto em que Chico deixa uma poética mais leve e assume um engajamento social e político explícito. A Wikipédia acrescenta que a faixa-título é muito estudada em cursos de música e de literatura.
A influência chega a gerações mais novas. A uDiscover Music cita Marcelo Camelo, Tim Bernardes e o grupo Bala Desejo como artistas em quem o disco ecoa. É fácil entender por quê. O álbum mostra que se pode fazer canção popular, de refrão grudento e melodia bonita, e ainda assim carregar uma crítica pesada.
Há também um argumento musical a favor do disco como candidato à melhor obra dos anos 1970. A maior parte dos grandes álbuns da década aposta em uma ideia de som, uma estética ou um grupo. Construção aposta na canção. Cada faixa se sustenta sozinha, e o conjunto ainda forma uma narrativa, com começo irônico, meio duro e fim em canção de ninar. O arranjo de Duprat nunca disputa espaço com a voz, e a escolha de convidados como Jobim e Toquinho amarra o disco à tradição da bossa e do samba.
Em 2021, o disco foi lembrado pelos cinquenta anos, como mostra a matéria da Fundação Perseu Abramo. A data serviu para rever o que a faixa-título ainda diz sobre trabalho, desigualdade e pressa. O disco não envelheceu porque esses assuntos também não saíram de cena.