Contexto e gravação
Elis & Tom junta duas figuras de peso. De um lado, Elis Regina, que completava dez anos de contrato com a Philips. Do outro, Tom Jobim, o compositor que levou a bossa nova ao mundo e que então vivia em Los Angeles. A Wikipédia lista o disco como lançado em agosto de 1974, e ele surgiu como presente à Elis pelos dez anos dela na Philips.
As sessões aconteceram de 22 de fevereiro a 9 de março de 1974, nos estúdios da MGM, em Los Angeles. Elis viajou em 20 de janeiro, com o marido e pianista César Camargo Mariano, o produtor Aloísio de Oliveira, o guitarrista Hélio Delmiro, o baixista Luizão Maia e o baterista Paulinho Braga. Os primeiros dias foram tensos. O clima melhorou depois que Mariano terminou o arranjo de “Corcovado”, de acordo com a Wikipédia.
A Rolling Stone Brasil conta que Roberto de Oliveira, então diretor da TV Bandeirantes, foi aos Estados Unidos para filmar as sessões. As imagens ficaram guardadas por mais de quarenta anos e viraram o documentário Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você, que ganhou o Prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Oliveira disse que a relação entre os dois era tensa em alguns momentos e que ele atuou como mediador até que cada um reconhecesse o talento do outro.
Os créditos de produção incluem Aloísio de Oliveira e César Camargo Mariano, e a Wikipédia lista ainda André Szajman e João Marcello Bôscoli na ficha. Jobim tocou piano, cantou e tocou violão, e escreveu por inteiro apenas o arranjo de “Modinha”. Todos os outros arranjos são de Mariano. Ele usou piano acústico e elétrico, violões e cordas, o que não era comum na bossa nova da época. Bill Hitchcock regeu as cordas em faixas como “Águas de Março” e “Corcovado”. Participaram também Oscar Castro-Neves (violão), Chico Batera (percussão) e, sem crédito na capa, os flautistas Hubert Laws e Jerome Richardson.
Faixas de destaque
Águas de Março
Abre o disco e virou o maior sucesso dele. A Wikipédia a descreve como a versão mais famosa de Elis e Tom para a canção. O arranjo de Mariano dá à música uma pulsação constante, e as duas vozes se alternam como numa conversa. A canção também aparece em primeiro lugar numa enquete de 2001 da Folha de S.Paulo sobre as maiores músicas brasileiras, à frente de “Construção”, segundo a Wikipédia sobre o disco de Chico. A enquete trata da canção, e não desta gravação.
Corcovado
Foi o arranjo que desfez o mal-estar das primeiras sessões, segundo a Wikipédia. Mariano escreveu a parte e Hitchcock regeu as cordas. Jobim canta e toca piano e violão. É uma das gravações em que a bossa clássica e o acabamento de estúdio americano mais se encontram.
Modinha
Única faixa com arranjo de Jobim. A Wikipédia a coloca entre as mais dramáticas e orquestrais do disco, longe do jeito leve de outros momentos. O fato de ser a única faixa que Tom arranjou por conta própria dá a ela um peso especial.
Retrato em Branco e Preto
Arranjo de Mariano com cordas regidas por Hitchcock e Jobim ao piano. A Wikipédia a coloca no grupo de faixas mais dramáticas. O título já indica o tom de despedida, e a faixa fica no lado B, onde o disco fica mais denso.
Inútil Paisagem
Fecha o álbum. A Wikipédia em português descreve a faixa como Elis acompanhada apenas pelo piano de Jobim, que ainda sussurra trechos da letra. A versão em inglês credita a Mariano os arranjos de todo o disco, exceto o de “Modinha”, o que inclui esta faixa. As duas descrições não se contradizem de forma clara: uma fala de quem toca, a outra de quem assina o arranjo. De qualquer modo, é um final de pouca ornamentação depois de um disco cheio de cordas.
Por Toda a Minha Vida
Aparece no filme Fale com Ela (2002), de Pedro Almodóvar, segundo a Wikipédia. A inclusão numa produção internacional ajudou o disco a ser descoberto por quem não conhecia a bossa nova.
Recepção da crítica
O álbum foi sucesso comercial e atendeu às expectativas de Elis, de Tom e da gravadora, de acordo com a Wikipédia. A página registra que a Billboard o descreveu como um dos discos brasileiros mais vendidos de todos os tempos. Em outubro de 1974, os dois fizeram shows no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, e no Hotel Nacional, no Rio.
Na imprensa de 1974, o disco foi elogiado. A Wikipédia cita as resenhas favoráveis de Walter Silva na Folha de S.Paulo, antes do lançamento, e de O Globo, O Estado de S. Paulo, Veja e Manchete, algumas o colocando entre os melhores do ano.
Na avaliação posterior, o AllMusic deu quatro estrelas e meia. Thom Jurek escreveu que o álbum é “amplamente considerado” um dos maiores discos pop brasileiros. A Rolling Stone Brasil o colocou em 11º lugar entre os 100 maiores discos brasileiros, em 2007. Na enquete de 2012 da Rádio Eldorado FM, do Estadão.com e do Caderno C2+Música, ficou em quarto. Tom Moon o incluiu em 1.000 Recordings to Hear Before You Die, de 2008, e o álbum entrou para o Latin Grammy Hall of Fame em 2007.
Legado
A edição de trinta anos, de 2004, foi supervisionada por Mariano e trouxe mixagens em 5.1. A primeira tiragem de 100 mil cópias teria vendido 75 mil rapidamente, conforme a Wikipédia. O CD tinha saído pela primeira vez em 1990, pelo selo Verve.
Entre os músicos que citam o disco como favorito, a Wikipédia lista Andy Summers, Brad Mehldau, Carla Bruni, Carly Simon e Mark Ronson. A companhia de dança Quasar montou um espetáculo baseado nele em 2005. E o documentário de 2023 voltou às gravações para mostrar os bastidores.
Como candidato ao melhor álbum dos anos 1970, Elis & Tom tem um trunfo particular: é um encontro de dois mundos. A bossa nova de Tom, nascida nos anos 1950, passa pela mão de uma cantora e de um pianista-arranjador da geração seguinte. O resultado não imita o passado. Mariano pôs piano elétrico e cordas num gênero conhecido pela economia, e Elis levou ao repertório uma interpretação dramática. O disco soa ao mesmo tempo clássico e novo.
Tem ainda o peso da história por trás. Foram duas semanas de estúdio tensas, um arranjo que quebrou o gelo e um filme que ficou décadas guardado até a gente poder ver o que acontecia na sala. É raro um disco ter essa soma de música e bastidor, e é por isso que ele segue sendo ouvido, discutido e revisto cinquenta anos depois.