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DISCO DA DÉCADA · 1990DA LAMA AOCAOSCHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI1994
Anos 1990

Da Lama ao Caos

Chico Science & Nação Zumbi · 1994 · Chaos / Sony Music

Faixas de destaque:

  • A Praieira
  • A Cidade
  • Da Lama ao Caos
  • Samba Makossa
  • Côco Dub (Afrociberdelia)
Votar nos anos 1990

Contexto e gravação

Em 1993, uma banda do Recife assinou com a Sony Music sem ter feito um único disco. Chico Science & Nação Zumbi vinha da cena manguebeat, um movimento de Pernambuco que misturava maracatu, rock, funk e hip-hop, e que tratava a cidade como tema: manguezais, periferia, pobreza, informação chegando por antena parabólica. O contrato foi assinado em julho daquele ano, segundo a Wikipédia.

Chico queria um produtor de fora, como Arto Lindsay ou Bill Laswell. A gravadora indicou Liminha, dono do estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Em entrevista à Folha de Pernambuco, em 2024, Liminha contou que o diretor artístico da Sony, Jorge Davidson, lhe mandou uma fita cassete da banda, gravada de forma precária. Mesmo assim, ele percebeu ali uma ideia diferente do que se fazia na época.

O trabalho de estúdio

A gravação aconteceu entre 1993 e janeiro de 1994, no Nas Nuvens. A Wikipédia descreve sessões de cerca de doze horas, de segunda a sábado. Liminha explica que o trabalho foi feito em fita, sem Pro Tools, o que quer dizer que o que está no disco é a execução real dos músicos. Para ajustar as faixas, ele fazia loops de baixo e de alfaia e editava à mão.

A alfaia, o tambor de maracatu que dá a pancada característica do grupo, foi o maior desafio técnico. Liminha afirma que o instrumento tem pouco grave e que, quando três alfaias tocam juntas, surgem problemas de fase. Outra dificuldade era a falta de experiência dos músicos em estúdio. Segundo o produtor, eles aprenderam muito ouvindo a própria gravação. Os percussionistas nem tinham baquetas próprias e usaram as de João Barone.

A formação era: Chico Science (voz), Lúcio Maia (guitarra), Alexandre Dengue (baixo), Toca Ogan (percussão e efeitos), Canhoto (caixa) e Gira, Gilmar Bola 8 e Jorge du Peixe nas alfaias. Entre os convidados estão André Jung no berimbau, Chico Neves nos samplers, creditado em seis faixas, e Liminha, que dá um grito em “Lixo do Mangue”.

Capa e manifesto

A capa foi feita à mão, com fotocópias, recortes e colagem, a partir de uma foto de Fred 04, editada por Hilton Lacerda e Hélder Aragão (DJ Dolores). A primeira versão era em preto e branco, e a gravadora pediu cores. No encarte, o disco traz o primeiro manifesto do movimento, “Caranguejos com cérebro”. As letras citam Josué de Castro, autor de Geografia da Fome e Homens e Caranguejos, e a faixa-título faz referência direta a ele.

Faixas de destaque

A Praieira

Uma das duas faixas que mais tocaram nas rádios, ao lado de “A Cidade”. Entrou na trilha da novela Tropicaliente. O balanço vem das alfaias e da guitarra, com a voz de Chico ditando o ritmo. Mostra como o grupo conseguia ser dançante sem abrir mão do peso.

A Cidade

Outro sucesso de rádio, presente na trilha de Irmãos Coragem. Usa trechos de Velho Faceta e das Baianas de Ipioca, que ligam a música a fontes populares do litoral pernambucano. O resultado é um retrato urbano que soa ao mesmo tempo moderno e muito ligado ao chão.

Da Lama ao Caos

A faixa-título abre o lado conceitual do álbum e cita Josué de Castro. A Rolling Stone Brasil a colocou em 22º lugar na lista das 100 maiores músicas brasileiras, em 2009. É o ponto em que o manifesto vira canção.

Samba Makossa

Mistura samplers de “Brown Rice”, de Don Cherry, e “Soul Makossa”, de Manu Dibango, com a pegada local. A faixa mostra a ambição global do grupo: o recifense dialogando com o jazz e com a música africana, sem pedir licença. Foi single em 1994.

Salustiano Song

Instrumental curto de Chico Science e Lúcio Maia, em homenagem a Mestre Salustiano. Lúcio usou um EBow, aparelho que faz a corda da guitarra vibrar de modo contínuo, para imitar o som da rabeca. Liminha conta que apresentou o EBow ao guitarrista, que o incorporou à faixa.

Côco Dub (Afrociberdelia)

O fecho, com quase sete minutos, é a mais longa do disco. Usa “Vitamin C”, do Can, como base de sample. O título junta coco, o gênero nordestino, com dub, e o subtítulo aponta para um futuro afro e cibernético.

Recepção da crítica

A recepção comercial foi tímida no começo. A Wikipédia informa que o disco vendeu cerca de 10 mil cópias, número atribuído a uma falta de compreensão inicial, de acordo com Paulo André Pires. Outros lançamentos da Sony na época, de Gabriel o Pensador e do Skank, receberam disco de ouro rapidamente. Parte do público também estranhou: alguns fãs acharam que a produção havia suavizado o som pesado dos shows.

Com o tempo, o julgamento virou quase unânime. O AllMusic deu 4,5 estrelas em cinco. Em 2007, a Rolling Stone Brasil colocou o álbum em 13º lugar na lista dos 100 maiores discos da música brasileira. Em 2022, a lista Discoteca Básica o pôs em 17º entre os 500 maiores. Em junho de 2022, uma enquete do jornal O Globo com 25 especialistas o elegeu o melhor disco da MPB dos últimos 40 anos.

O G1, em 2009, tratou o disco como essencial ao manguebeat nos seus 15 anos. Em 2019, ele entrou na série de e-books Discos da Música Brasileira, com volume organizado por Lauro Lisboa Garcia. Em 2020, Lorena Calábria lançou Da Lama ao Caos – O Livro do Disco, pela Cobogó.

Legado

O disco levou o som de Pernambuco para fora do Brasil. A banda fez shows nos Estados Unidos e na Alemanha, e o álbum foi lançado nos EUA em junho de 1995, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne. Segundo a Wikipédia, o grupo também chegou a encontrar Nick Cave.

A influência alcançou o metal. O álbum Roots, do Sepultura, de 1995, foi influenciado por Da Lama ao Caos, e Max Cavalera dedicou o disco ao manguebeat. A faixa-título foi regravada pelo Sepultura em outro trabalho. Outras faixas ganharam vozes novas: “Computadores Fazem Arte” com Elza Soares, “A Praieira” com Daniela Mercury, “Risoflora” com Elba Ramalho e “Samba Makossa” com Charlie Brown Jr. e com o Planet Hemp.

Em 2025, o álbum foi regravado inteiro no Projeto Replay, do Canal Bis, com participação de Marcelo D2, Chico Chico, FBC e Louise, filha de Chico Science. O fato de gerações diferentes ainda voltarem a ele diz algo sobre o tipo de disco que é. Liminha disse à Folha de Pernambuco que tem “muito orgulho” do trabalho e que o vê como valorização de uma identidade brasileira original, na sonoridade e na poesia das letras.

Como candidato ao melhor disco dos anos 1990, Da Lama ao Caos tem um argumento difícil de ignorar: criou um som novo a partir de elementos que já existiam, e fez isso sem copiar nenhum modelo de fora. O disco fala do Recife, mas a gramática dele atravessou fronteiras.