Pular para o conteúdo
Disco da
DécadaVote por década
Disco da Década: página inicial
DISCO DA DÉCADA · 1980LUZDJAVAN1982
Anos 1980

Luz

Djavan · 1982 · CBS

Faixas de destaque:

  • Samurai
  • Pétala
  • Açaí
Votar nos anos 1980

Contexto e gravação

Em 1982, Djavan já era um nome respeitado entre músicos e crítica, mas ainda não era o astro de rádio que se tornaria. Luz foi o quinto álbum de estúdio dele e saiu em 20 de agosto de 1982, depois de Seduzir, de 1981. Segundo a Wikipédia, a gravadora CBS, hoje Sony Music, fez a proposta que mudou o rumo do disco: lançar o trabalho nos Estados Unidos e gravar em estúdios americanos. A Rolling Stone Brasil lembra que a CBS o havia tirado da EMI-Odeon e que o som dele começava a chamar a atenção do mercado americano, sobretudo do circuito do jazz.

A produção ficou com Ronnie Foster. Segundo a Wikipédia, ele era um dos principais produtores da soul music americana da época. O texto de Dave Reaboi acrescenta um dado útil: Foster era tecladista e tinha passado os anos 1970 em discos de jazz-funk do selo Blue Note. Ou seja, o produtor vinha de um universo em que groove e harmonia sofisticada caminham juntos, e esse universo era o território natural de Djavan.

As sessões aconteceram em Los Angeles. Foster reuniu músicos de estúdio de alto nível. A ficha da Wikipédia cita Abraham Laboriel no baixo, Harvey Mason na bateria, Jorge Dalto ao piano, Paul Jackson Jr. na guitarra e Ernie Watts no saxofone. Reaboi também menciona a presença do flautista Hubert Laws. Do lado brasileiro, entram Sizão Machado no baixo, Téo Lima na bateria, Luiz Avellar no piano e Zé Nogueira no saxofone, em faixas específicas. Djavan toca violão em parte do repertório e assina todas as músicas.

O convidado mais famoso é Stevie Wonder. Ele toca gaita cromática na faixa de abertura do disco, “Samurai”, e divide o momento com Djavan. Pela Rolling Stone Brasil, o próprio Djavan contou que Stevie já conhecia o álbum anterior, Seduzir, e foi muito solícito: reservou um dia para ir ao estúdio. A Wikipédia diz que a canção nasceu durante as sessões em Los Angeles.

O resultado tem 41 minutos e dez faixas. Na edição em CD, “Pétala” e “Samurai” trocam de lugar em relação ao LP, o que explica por que fontes diferentes dão uma ou outra como abertura.

Faixas de destaque

Samurai

É a faixa mais comentada do disco por causa da gaita de Stevie Wonder. A harmônica cromática de um dos maiores músicos da soul americana entra numa canção de Djavan, em português, gravada em Los Angeles. O interesse está nesse encontro entre dois melodistas, mais do que em qualquer efeito de estúdio. A Rolling Stone Brasil a coloca entre as músicas de destaque do álbum.

Pétala

Balada romântica, uma das canções que mais associam o nome de Djavan ao grande público. A Wikipédia a cita, junto com “Açaí”, entre as baladas pop do disco. Na ficha técnica, o piano é de Jorge Dalto e o baixo de Abraham Laboriel, e o conjunto serve à voz, que fica na frente da mixagem. É isso que torna a canção tão íntima.

Açaí

Outra balada, também lembrada entre os destaques. Alvaro Neder, no AllMusic, elogia as baladas pop do disco e observa que os arranjos têm inspiração de jazz. Mesmo assim, a canção funciona como pop. Quem não conhece nada de harmonia ouve só uma música bonita, e quem conhece tende a encontrar mais camadas.

Luz

A faixa-título dá nome ao disco e fica do lado mais movimentado do repertório. Na ficha técnica, entram Laboriel no baixo, Harvey Mason na bateria, Jorge Dalto ao piano e Zé Nogueira no saxofone. É uma seção rítmica de peso, e a levada pesa tanto quanto a melodia.

Sina

A Rolling Stone Brasil a cita ao lado de “Samurai” e “Pétala” como destaque. É a faixa mais longa do disco, com pouco mais de cinco minutos e meio, e dá a Djavan espaço para desenvolver o canto sem pressa. Quem prefere o Djavan de violão e voz costuma gostar dela.

Recepção da crítica

O disco tem boa reputação entre os críticos de música brasileira. No AllMusic, Alvaro Neder deu quatro estrelas de cinco e descreveu o álbum como dividido entre canções românticas e faixas de balanço, com arranjos de inspiração jazzística. No site Notas Musicais, Mauro Ferreira deu cinco estrelas e chamou o trabalho de “explosão pop”. Ele o considera o álbum que transformou Djavan em superstar, com vendas expressivas e uma sequência de sucessos.

Na época do lançamento, O Estado de S. Paulo escreveu, segundo a Wikipédia, que o disco trazia “o que seu título sugere: um brilho aos ouvidos e aos olhos”. A frase é curta e boa de guardar, porque resume o que o álbum tem de mais evidente: acabamento limpo e claridade.

Dave Reaboi, escrevendo em inglês, vai mais longe. Para ele, os arranjos não soam exatamente como jazz. Lembram o pop sofisticado do fim dos anos 1970, com Steely Dan, Joni Mitchell e Laura Nyro como pontos de comparação. Ele ainda considera Luz o trabalho mais coeso, cativante e pop de Djavan até aquele momento, e um dos poucos discos quase perfeitos da época. É uma opinião de um resenhista, não um veredito geral, mas ajuda a entender por que o disco volta a aparecer quando se fala em Djavan.

As fontes consultadas não informam números de vendas, certificações nem posições em listas de melhores discos. A única indicação comercial é a de Mauro Ferreira, que fala em “vendas expressivas” sem citar cifra.

Legado

Luz mostrou que um artista brasileiro podia gravar nos Estados Unidos sem trocar de identidade. A língua continua sendo o português, o violão continua no centro da composição e a rítmica do Nordeste, tão presente na obra de Djavan, não some sob o verniz americano. O disco abriu caminho para Lilás, de 1984, também gravado em Los Angeles. A Rolling Stone Brasil observa que esse trabalho seguinte recebeu as primeiras críticas negativas de Djavan, por causa do tom eletrônico, o que sugere que Luz era visto como o ponto de equilíbrio entre o calor brasileiro e o polimento americano.

Há também a repercussão internacional. Segundo Reaboi, Quincy Jones comprou os direitos de algumas canções das sessões. Em 1987, o grupo vocal Manhattan Transfer gravou versões com letras em inglês. Reaboi critica duramente essas versões, o que vale registrar: a atenção americana existiu, mas o resultado nem sempre fez justiça às canções originais.

Como candidato a melhor álbum brasileiro dos anos 1980, Luz tem um argumento próprio. Quase toda a lista da década passa pelo rock de Brasília, de São Paulo e do Rio. Djavan representa outra linhagem, a do compositor que estuda harmonia, mistura soul, jazz e música nordestina e faz tudo soar como pop. Quem vota nele vota na ideia de que a canção brasileira de 1982 já estava pronta para conversar de igual para igual com o som de Los Angeles.

Ouvido hoje, o disco mantém o frescor por um motivo simples: os arranjos servem à melodia. Nenhum solo atrapalha a canção. A gaita de Stevie Wonder aparece, brilha e sai de cena. Os músicos americanos tocam com a precisão de quem sabe que o centro é outro. A voz de Djavan fica na frente, e o disco inteiro foi montado para que ela fique ali.