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DISCO DA DÉCADA · 2010NÓ NAORELHACRIOLO2011
Anos 2010

Nó na Orelha

Criolo · 2011 · Oloko Records

Faixas de destaque:

  • Não Existe Amor em SP
  • Subirusdoistiozin
  • Mariô
  • Freguês da Meia-Noite
Votar nos anos 2010

Contexto e gravação

Nó na Orelha é o segundo álbum de estúdio de Criolo. Saiu em 25 de abril de 2011, em duas frentes ao mesmo tempo: CD e vinil, vendidos pela Livraria Cultura, e download gratuito pelo selo Oloko Records. Essa decisão de distribuição já dizia muito sobre o disco. Ele nasceu fora do centro da indústria e chegou ao público por um caminho que dependia mais do boca a boca do que de lançamento de grande gravadora.

O trabalho foi gravado entre 2010 e 2011. A produção ficou com Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, com Fernando Sanches creditado como coprodutor na lista de faixas. Segundo a resenha do Sounds and Colours, assinada por Russ Slater em 2011, a dupla montou a base de guitarra, baixo e teclados, e o disco recebeu um time de convidados: Rodrigo Campos na percussão, Guizado no trompete, Thiago França no sax, Juçara Marçal nos vocais, Renato Rossi na viola, Luiz Gustavo Nascimento no violino e os DJs Dan Dan e Marco nos scratches. A Wikipédia lista ainda Kiko Dinucci na guitarra de “Mariô”, Rodrigo Campos no cavaquinho e na percussão de “Linha de Frente” e Verônica Ferriani e Juçara Marçal nos vocais de apoio.

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, publicada pouco antes de um show em outubro de 2013, Criolo contou que o disco foi pensado como o último dele como rapper e que “não ia ser álbum”. O sucesso, segundo a mesma matéria, veio depois de uma turnê de cerca de dois anos e meio. A sonoridade coletiva, disse ele, foi se formando na vivência da banda no palco.

O resultado reúne rap, afrobeat, hip hop, reggae, samba e brega, nas palavras da Wikipédia. São dez faixas e 38 minutos e 56 segundos de duração, com uma faixa bônus nas edições físicas, a “Samba Sambei Dub Mix”. É um disco curto, e isso ajuda. Quase nenhuma música passa de quatro minutos e meio, e cada uma tem uma cor própria.

Faixas de destaque

Não Existe Amor em SP

Lançada como single em março de 2011, é a música que mais carregou o nome de Criolo. É uma canção sobre a cidade de São Paulo, lenta e melancólica, em que o arranjo deixa espaço para a voz. Ela ganhou o prêmio de Música do Ano no Video Music Brasil de 2011, e a Rolling Stone Brasil a escolheu como a melhor música nacional daquele ano. No palco do VMB, Criolo a cantou ao lado de Caetano Veloso.

Subirusdoistiozin

Foi o primeiro single, de dezembro de 2010. Slater a descreve como um groove lento e psicodélico e usa o flow de Criolo como argumento a favor do rap em português. O clipe concorreu a Vídeo do Ano no VMB. A faixa mostra que o disco não tinha pressa de entregar o refrão fácil.

Mariô

Single de 2012, traz Kiko Dinucci na guitarra. Slater destaca o baixo errante e os vocais em pergunta e resposta, com uma aproximação dos ritmos afro-brasileiros. É uma das músicas em que o disco mais se afasta do rap tradicional sem abrir mão da palavra falada.

Freguês da Meia-Noite

Segundo a resenha de 2011, tem baixo sinuoso e um órgão etéreo, e lembra o Portishead. Slater compara o canto de Criolo ao de Roberto Goyeneche, cantor argentino de tango. A música virou single em dezembro de 2011 e mostra o lado noturno do álbum.

Bogotá e Linha de Frente

“Bogotá” abre o disco como um funk com metais, percussão marcada e guitarra incisiva, de acordo com a mesma resenha. “Linha de Frente” fecha com um samba enxuto, que expõe a força da voz sem enfeite. Abrir com groove e fechar com samba dá ao álbum um arco claro, do corpo ao coração.

Recepção da crítica

A recepção foi forte desde o começo. A Rolling Stone Brasil deu quatro de cinco estrelas ao disco e depois o elegeu o melhor álbum nacional de 2011. No VMB 2011, Criolo venceu como Álbum do Ano e Artista Revelação, e a música “Não Existe Amor em SP” levou o prêmio de Música do Ano. O disco também foi lembrado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, segundo reportagens que repetem essa informação. As fontes consultadas não dizem em qual categoria.

Do lado de fora, o Sounds and Colours deu cinco estrelas. Russ Slater o chamou de “the album Sao Paulo hip-hop needed” (Sounds and Colours, 2011) e escreveu que há ideias demais no disco para ele cair no esquecimento. A resenha também o trata como um marco para o hip-hop paulistano, uma cena que, segundo o autor, abria pouco espaço a colaborações externas.

O que chama a atenção na recepção é a mistura de público. O disco agradou ao fã de rap, ao ouvinte de MPB e ao crítico de jornal. Isso acontece porque o álbum não pede licença. A letra é densa, fala de cidade, desigualdade e afeto, mas o som traz samba, brega e dub, gêneros que o ouvinte brasileiro já carrega no ouvido.

Legado

O primeiro efeito do disco foi mudar o lugar de Criolo. Quem se apresentava como rapper da periferia paulistana passou a dividir palco com nomes consagrados da música popular. A cena do VMB com Caetano Veloso virou símbolo desse trânsito.

O segundo efeito foi abrir uma porta estética. Nó na Orelha mostrou que um disco de rap brasileiro podia ser feito com banda, produção de estúdio sofisticada e músicos vindos do jazz, do samba e da vanguarda paulistana. Gente como Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral aparece aqui, e esse mesmo círculo reaparece em outros discos importantes da década. Quem ouve MetaL MetaL e A Mulher do Fim do Mundo encontra vários desses nomes. O disco ajudou a formar uma rede de músicos que moldou o som paulistano dos anos 2010.

O terceiro efeito é o argumento a favor do rap em português cantado com melodia. Slater já apontava isso em 2011, quando usou o flow de Criolo para defender a língua no gênero. O álbum mostra que melodia, samba e crítica social podem caber na mesma faixa sem que uma coisa derrube a outra.

Como candidato ao título de álbum da década, Nó na Orelha tem três trunfos concretos. Primeiro, a ousadia de som: dez faixas, quase nenhuma igual à outra. Segundo, o peso do momento, porque marcou a virada de 2011 e abriu espaço para o que veio depois. Terceiro, a durabilidade: a produção de Ganjaman e Cabral deixou o disco com cara de estúdio bem cuidado, e ele não soa datado. Quem ouve hoje percebe que a cidade descrita ali ainda é a mesma.