Contexto e gravação
Em 1963, Jorge Ben tinha 24 anos e uma maneira de tocar violão que ninguém havia ouvido direito. O Rio de Janeiro vivia o auge da bossa nova, mas a bossa já dividia espaço com outra coisa, mais rápida e mais dançante. Nos clubes do Beco das Garrafas, em Copacabana, músicos de jazz e de samba tocavam juntos, e dessa mistura saiu o chamado samba-jazz. Foi nesse caldo que o jovem compositor chegou à gravadora Philips.
A história que se conta é simples. Segundo a biografia do artista na Wikipedia em inglês, ele cantou “Mas, que Nada!” num pequeno clube em que havia um executivo da Philips na plateia, e o primeiro compacto saiu cerca de uma semana depois. O LP veio na sequência, ainda em 1963. A página da Wikipédia em português registra o disco como a estreia de Jorge Ben em álbum, com 12 faixas e menos de 29 minutos de duração.
O acompanhamento ficou com Meirelles e os Copa 5, grupo de samba-jazz liderado pelo saxofonista e flautista J.T. Meirelles. Um programa da Rádio Senado de 2026 lembra que Meirelles, então com 23 anos, assinou os arranjos das canções do disco. A ficha da Wikipédia lista ainda arranjos de Carlos Monteiro de Souza, Lindolfo Gaya e Luís Carlos Vinhas, além do próprio Jorge Ben. A produção é de Armando Pittigliani, e a engenharia de som, de Sylvio Rabello.
Quem tocou? A mesma página, apoiada no AllMusic, cita Jorge Ben no violão, J.T. Meirelles na flauta e no sax, Luís Carlos Vinhas no piano, Pedro Paulo no trompete, Manuel Gusmão no baixo e Dom Um Romão na bateria. É uma formação enxuta, de casa de show pequena, e o disco soa assim: sem excesso de camadas, com o violão de Ben na frente.
O estúdio e as datas exatas das sessões não aparecem nas fontes consultadas, nem numa busca complementar na web. Só dá para afirmar com segurança que a gravação é de 1963 e que o disco saiu pela Philips.
Um detalhe de nome: o artista assinava Jorge Ben na época. Só em 1989 ele passou a usar Jorge Ben Jor, segundo a biografia em inglês. Por isso o álbum aparece com um ou outro nome, conforme a edição.
Faixas de destaque
“Mas, que Nada!”
É a faixa de abertura e a mais conhecida do repertório, com pouco mais de três minutos. O violão de Ben dita a levada, e os sopros de Meirelles e o trompete de Pedro Paulo completam o arranjo. Fora do Brasil, a canção ficou famosa nas versões de Sérgio Mendes e do Tamba Trio, e jazzistas como Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Dizzy Gillespie e Al Jarreau também a gravaram, segundo a biografia em inglês. Ouvir a original depois dessas versões ajuda a notar como o groove nasce do violão.
“Chove Chuva”
Tem pouco mais de três minutos e é uma das faixas mais longas do lado A. A formação do disco inclui piano, trompete e os sopros de Meirelles, e é nesse tipo de faixa que o jazz de pequeno grupo se encontra com o samba. A faixa ajuda a ver como o álbum alterna a pegada dançante com momentos de maior leveza, próximos da bossa.
“Balança Pema”
Com pouco mais de um minuto e meio (1:29, segundo a ficha da Wikipédia), é a faixa mais curta do disco. Dom Um Romão toca bateria no álbum, e o violão de Ben conduz o ritmo. A brevidade mostra o hábito de dizer o que quer e sair de cena, algo que vale para boa parte do repertório.
“Por Causa de Você Menina”
Fecha o lado B com quase três minutos (2:58). Com os sopros de Meirelles, o piano de Vinhas e o trompete de Pedro Paulo na formação, o arranjo tem espaço para que os instrumentos conversem com a voz, no clima de clube noturno que cercava o disco.
“Tim, Dom, Dom”
Única composição de terceiros do repertório, creditada a João Mello e Codó, segundo a ficha da Wikipédia. Ben a canta no mesmo balanço do resto do disco, o que mostra que ele sabia tratar música alheia como se fosse sua.
Recepção da crítica
A recepção na época foi dividida entre o entusiasmo do público e a desconfiança de parte da imprensa. A Wikipédia cita um texto do acervo do jornal O Estado de S. Paulo, publicado em 2012, segundo o qual o crítico do jornal esperava que o disco sumisse logo das lojas, como tinham sumido os compactos de 78 rotações que Ben lançara antes. A previsão não se confirmou. A biografia em inglês diz que o LP foi recebido com grande aclamação pelos fãs e que a Philips correu para lançar novos discos em seguida.
O tempo mudou o julgamento. Na lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil, publicada em outubro de 2007, Samba Esquema Novo aparece na 15ª posição, segundo a Wikipédia. O AllMusic dá ao álbum 3,5 estrelas de 5, nota mais contida que a de outros discos da mesma década.
Houve um efeito colateral para o artista. Ainda de acordo com a biografia em inglês, a pressa da Philips em explorar o sucesso rendeu três álbuns em cerca de 18 meses, alguns imitando a estreia e outros de versões. A relação com a gravadora ficou tensa, e Ben saiu depois de Big Ben, de 1965.
Legado
O disco é citado como marco de uma maneira de fazer samba que a crítica depois chamaria de sambalanço e, mais adiante, de samba-rock. A Billboard, em 2001, chamou Jorge Ben de “pai do samba-rock”, conforme a biografia em inglês. Produtores e DJs de jazz-funk, disco e acid jazz sampleiam a obra dele há décadas.
A influência aparece também no nome de outros trabalhos. Em 1994, a banda pernambucana Mundo Livre S/A batizou seu disco de estreia de Samba Esquema Noise, uma referência direta ao título de Ben, como registra a Wikipédia. Em 2006, saiu a coletânea Jorge Ben Revisitado, cobrindo o período de Samba Esquema Novo (1963) a África Brasil (1976).
J.T. Meirelles seguiu no samba-jazz. O programa da Rádio Senado lembra que ele lançou com os Copa 5 os discos O Som (1964) e O Novo Som (1965), que viraram referência na mistura entre samba e jazz, e que voltou a gravar em 2002 e em 2005, com o disco retrospectivo Esquema Novo.
Para quem ouve hoje, o álbum continua curto, direto e fácil de escutar de uma vez. Em menos de meia hora há um violão que mudou o jeito de acompanhar samba, uma banda que sabia improvisar sem perder o ritmo e uma canção, “Mas, que Nada!”, que ganhou o mundo. Como candidato a melhor álbum dos anos 1960, o disco defende sua tese pelo som: nenhum outro da década soa tão cheio de swing com tão poucos recursos.