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Disco da Década: página inicial
DISCO DA DÉCADA · 2010A MULHERDO FIM DOMUNDOELZA SOARES2015
Anos 2010

A Mulher do Fim do Mundo

Elza Soares · 2015

Faixas de destaque:

  • Maria da Vila Matilde
  • Luz Vermelha
  • Pra Fuder
  • Benedita
  • Comigo
Votar nos anos 2010

Contexto e gravação

Em 2015, Elza Soares já tinha mais de meio século de carreira. A Mulher do Fim do Mundo é o 32º álbum de estúdio dela, e foi apresentado como um recomeço. A Wikipédia registra que a crítica o descreveu como um “renascimento” para a cantora. O disco saiu em 3 de outubro de 2015, com patrocínio da Natura Musical, e tem 11 faixas em 39 minutos e 31 segundos.

A produção ficou com Guilherme Kastrup. Ernst von Bönninghausen foi o produtor executivo, e a direção artística coube a Romulo Fróes e Celso Sim. A gravação aconteceu em abril e maio de 2015, em São Paulo, no Red Bull Studios, no Toca do Tatu e, no Rio de Janeiro, no Estúdio Ciatec. Victor Rice mixou no Estúdio Copam, em São Paulo, e Felipe Tichauer masterizou em Miami.

O time de músicos vinha da cena paulistana que tinha ganhado força nos anos anteriores. Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral tocam guitarra, violão e cavaquinho, com Cabral também no baixo e no sintetizador. Kastrup e Felipe Roseno assumem bateria e percussão. Os sopros ficam com Cuca Ferreira, Daniel Nogueira, Thiago França e outros, e as cordas, com rabeca, viola e violoncelo, trazem Aramís Rocha, Robson Rocha, Thomas Rohrer, Edmur Mello e Deni Rocha. Celso Sim e Rodrigo Campos fazem vozes em faixas do disco.

As músicas vêm de vários compositores: Rômulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Cacá Machado, Marcelo Cabral, Celso Sim, Douglas Germano e José Miguel Wisnik, este com um poema de Oswald de Andrade. A Wikipédia lembra que o rapper Emicida chegou a ser anunciado como participante, mas não entrou no disco.

Os temas são duros: violência doméstica, sofrimento urbano, transexualidade e negritude. O som mistura vanguarda paulista, art rock, pós-punk, afrobeat, samba e eletrônica, segundo o mesmo verbete. A turnê estreou no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no dia do lançamento, e depois passou por capitais brasileiras, Barcelona, Lisboa e Nova York.

Faixas de destaque

Maria da Vila Matilde

O primeiro single, lançado em 11 de agosto de 2015, é um samba de breque de arranjo distorcido, escrito por Douglas Germano. Trata de violência doméstica pela voz da vítima. Russ Slater, do Sounds and Colours, descreve a faixa como uma catarse sombria que começa com um baixo ameaçador. A Rolling Stone Brasil, na crítica de Mauro Ferreira, a chama de uma abordagem ousada do tema. Foi a música premiada pela revista como a melhor do ano.

Luz Vermelha

Segundo single, de setembro de 2015, com música de Kiko Dinucci e letra de Clima. Para Slater, tem um groove de afrobeat com metais marcantes e letras inspiradas nas ruas. Mauro Ferreira vê na faixa o medo urbano e a perda de valores. A Rolling Stone Brasil colocou a música em 16º lugar na lista de melhores do ano.

Pra Fuder

É a faixa mais direta, segundo Slater: rápida e sensual, com metais vigorosos e violas em ritmo acelerado. Mauro Ferreira fala em uma faixa de alta voltagem e erotismo. Depois de duas músicas pesadas em tema, ela dá ao disco um respiro de corpo e desejo.

Benedita

Tem Celso Sim como convidado. Slater lê a música como o retrato de uma mulher em situação de rua, dependente de crack, sobre o baixo sombrio que abre o disco. Mauro Ferreira ouve nas guitarras uma energia que mantém o clima e uma ligação com o tom de vanguarda de Itamar Assumpção.

Comigo

Fecha o álbum, em pouco mais de dois minutos, a cappella. Mauro Ferreira diz que, nela, Elza evoca a mãe já morta. Depois de dez faixas de peso, o disco termina só com a voz, e isso deixa o ouvinte com a impressão mais íntima possível da cantora.

Recepção da crítica

A recepção foi das mais fortes da década. A Rolling Stone Brasil elegeu o disco o melhor do ano em 2015, e a Wikipédia registra nota máxima da revista e de Mauro Ferreira (Notas Musicais, 2015). A Folha de S.Paulo deu três de três estrelas (2015), assinada por Luiz Fernando Vianna. A Associação Paulista de Críticos de Arte o premiou como melhor álbum de 2015.

Fora do Brasil, o Guardian deu cinco estrelas em 2016 e o chamou de álbum brasileiro do ano. O Pitchfork deu 8.4 e o selo de Best New Album (2016), em texto de Philip Sherburne. O New York Times o incluiu entre os dez melhores do ano. Russ Slater, no Sounds and Colours (2016), escreveu que é “almost certainly the boldest record of Soares’ career” e que “represents the past, present and future of Brazilian music”.

Em 2016, o álbum levou o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Álbum e o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB. Em 2022, uma enquete do jornal O Globo com 25 especialistas o citou entre os melhores discos da MPB dos últimos 40 anos.

Mauro Ferreira, na Rolling Stone Brasil de 2015, resumiu o disco como “um ato de resistência da valente cantora de voz rouca”. O disco, de fato, não trata a dor com distância.

Legado

O disco levou Elza a públicos novos. A Wikipédia informa que ela se apresentou pela primeira vez no Rock in Rio, na sétima edição do festival, e que o álbum passou de nove milhões de execuções no Spotify. “Mulher do Fim do Mundo”, a faixa-título, entrou na trilha da série brasileira 3%, da Netflix. Em 2017, saiu um disco de remixes, com turnê.

Do ponto de vista musical, o álbum mostrou que uma cantora com décadas de estrada podia ocupar o centro de uma cena experimental. O encontro com a turma de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Thiago França, que também aparecem em discos como Nó na Orelha, de Criolo, e MetaL MetaL, do Metá Metá, deu forma a um som que muita gente passou a associar a São Paulo nos anos 2010.

Como candidato a álbum da década, o disco tem um argumento difícil de bater: reúne a unanimidade da crítica, no Brasil e no exterior, com ousadia real de som. Não é um disco de homenagem nem de nostalgia. Elza canta o presente, com temas duros, e a banda não amacia o arranjo. A escolha de pôr uma voz consagrada diante de guitarras ásperas e sopros de afrobeat é o que dá ao trabalho sua força.