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DISCO DA DÉCADA · 2010UM CORPONO MUNDOLUEDJI LUNA2017
Anos 2010

Um Corpo no Mundo

Luedji Luna · 2017 · YB Music

Faixas de destaque:

  • Um Corpo no Mundo
  • Banho de Folhas
  • Acalanto
  • Asas
  • Eu Sou Uma Árvore Bonita
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Contexto e gravação

Luedji Luna nasceu em Salvador, no bairro do Cabula, estudou na Escola Baiana de Canto Popular e foi morar em São Paulo em 2015. Um Corpo no Mundo, de 2017, é o primeiro disco de estúdio dela. A ideia nasceu na capital paulista, e o próprio título descreve esse deslocamento: uma pessoa que ocupa um espaço sem sentir que pertence a ele.

A Alma Preta publicou em dezembro de 2016 uma matéria sobre o projeto, ainda em preparação. O texto o apresenta como uma reflexão sobre identidade, formada pelo contato da cantora com imigrantes africanos em São Paulo. Fala de uma busca por ancestralidade e de uma pergunta: qual África ela poderia chamar de sua. Liga também as diásporas do passado e as de hoje. Em uma entrevista à Carta Capital, em 2017, Luedji citou como referências a música de Angola e Cabo Verde, Milton Nascimento e o reggae dos anos 1980, e falou de racismo, da sobrevivência de mulheres negras e da relação entre arte e política.

O disco foi bancado em parte por financiamento coletivo, na plataforma Catarse. A produção ficou com Sebastian Notini, músico sueco radicado na Bahia, que já tinha produzido os dois discos mais recentes de Tiganá Santana e Mama Kalunga, de Virgínia Rodrigues, segundo a Alma Preta. Reportagens sobre a artista descrevem o resultado como um disco fundado na percussão, de ritmos bem marcados.

Segundo a Rolling Stone Brasil (2024), o álbum saiu pela YB Music, de São Paulo, por iniciativa de Maurício Tagliari, sócio e A&R do selo, que a convidou para gravar depois de ouvir uma demo. A Wikipédia em inglês informa que o disco chegou ao Japão em 2018 e à Europa em 2019, e abriu a primeira turnê internacional da cantora. A edição europeia, de 2019, foi lançada pela Sterns.

A lista completa de músicos, o estúdio e as datas de gravação não aparecem nas fontes consultadas, nem numa busca complementar. A Carta Capital, em 2017, só informava que o financiamento coletivo ainda corria e que a gravação estava prevista para outubro.

Faixas de destaque

Um Corpo no Mundo

A faixa-título deu nome ao show e ao disco. O clipe, dirigido e filmado por Joyce Prado, trabalha com viagem, deslocamento e a paisagem de concreto de São Paulo contra o movimento orgânico do corpo, segundo a Alma Preta. A Rolling Stone Brasil informa que a música recebeu disco de ouro da Associação Brasileira da Música Independente, no programa Play de Ouro.

Banho de Folhas

É a faixa mais festiva do disco, segundo a própria Luedji, em depoimento sobre o EP de remixes Mundo. Uma versão dela, em remix com o DJ Maz, lançada em 2022, também recebeu disco de ouro. No EP, o DJ Nyack propôs a primeira versão remixada, que ganhou um tom de house e participação de Zudizilla, a partir de um convite no Red Bull Station, em São Paulo.

Acalanto

Luedji descreve a canção como uma love song um pouco sedutora e cita Erykah Badu como influência. A versão remixada tem Rhodes e Moog de Samuel Silva e guitarra e baixo de Vinicius Sampaio. A resenha da Songlines destaca “Acalanto” entre as faixas do álbum original.

Asas

Abre o disco, segundo a Songlines. A resenha cita violão acústico, baixo, percussão de mão e guitarra elétrica como a base do álbum. Como faixa de abertura, “Asas” apresenta a voz de Luedji sem pressa e estabelece o tom do trabalho.

Eu Sou Uma Árvore Bonita

Outra faixa citada pela Songlines. O título aponta para o lado mais afetivo e poético da estreia, o de uma artista que fala de si com imagens da natureza. As fontes consultadas só a citam e não descrevem a faixa em detalhe.

Dentro Ali e Cabô

Luedji conta, no faixa a faixa do EP, que “Dentro Ali” é uma das músicas mais antigas do disco, de 2012, sobre amor romântico e espera. “Cabô”, segundo ela, fala da dor de uma mãe negra que perde o filho. Duas canções, dois afetos, e um disco que cabe os dois.

Recepção da crítica

O disco foi bem recebido pela crítica e pelo público, segundo textos de imprensa sobre a cantora. Entre os prêmios, a Wikipédia em inglês cita um prêmio Bravo e uma indicação a Artista Revelação no Prêmio Multishow de 2018. Em entrevista à Forbes Brasil, em 2025, Luedji contou que foi selecionada para o Prêmio Afro, patrocinado pela Petrobras, e que passou em primeiro lugar num edital, o que a ajudou a gravar o primeiro álbum, junto com o financiamento coletivo. A entrevista não diz se o primeiro lugar foi no Prêmio Afro ou em outro edital, e as fontes consultadas não informam categoria nem ano.

No exterior, a Songlines deu quatro de cinco estrelas ao álbum e o marcou como Editor’s Choice, em resenha de Russ Slater publicada no segundo semestre de 2019, quando saiu a edição europeia. O texto fala do violão acústico, do baixo, da percussão de mão e da guitarra elétrica que sustentam o disco.

O melhor indicador de recepção, talvez, seja o tempo. A Rolling Stone Brasil informa, em 2024, que o disco soma mais de 100 milhões de plays nas plataformas, e que Luedji se tornou a primeira artista brasileira negra de música popular a alcançar dois discos de ouro independentes pelo programa Play de Ouro. Sete anos depois, a própria cantora chamou o trabalho de “um disco especial” que inaugurou a carreira dela.

Legado

O primeiro legado é de trajetória. Um Corpo no Mundo abriu caminho para Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água (2020), indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira em 2021, e para Um Mar Pra Cada Um (2025), que levou o Grammy Latino na categoria de música popular brasileira, segundo a Wikipédia em inglês.

O segundo é o do próprio material. O EP Mundo recriou cinco canções do álbum com DJ Nyack e convidados como Stefanie, Tássia Reis, Rincon Sapiência, Djonga e Zudizilla. Luedji disse que os remixes mantêm a ambiência e a energia do original, só com uma roupagem mais urbana. Que as faixas aguentem esse tratamento diz algo sobre a solidez da composição.

O terceiro é o do tema. Muitos discos da década falaram de raça e cidade, mas poucos fizeram isso pela via do deslocamento íntimo: o que é ser um corpo preto longe de casa, dentro de casa, no meio da multidão. Esse enfoque dialoga com Amarelo, de Emicida, e com A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, sem copiar nenhum dos dois.

Como candidato ao título de álbum da década, Um Corpo no Mundo tem a vantagem do início. É uma estreia que já chega com ideia, voz e identidade. Não depende de produção grandiosa. Confia no violão, na percussão e na maneira como Luedji canta, perto do ouvido, sem esforço aparente. Quem ouve percebe que a pergunta do título continua em aberto, e é isso que mantém o disco vivo.