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DISCO DA DÉCADA · 1980CABEÇADINOSSAUROTITÃS1986
Anos 1980

Cabeça Dinossauro

Titãs · 1986 · WEA

Faixas de destaque:

  • Cabeça Dinossauro
  • Bichos Escrotos
  • Polícia
  • Família
  • AA UU
Votar nos anos 1980

Contexto e gravação

Os Titãs chegaram a 1986 com dois discos que não venderam o esperado. A Billboard Brasil lembra que isso levou o grupo a procurar um produtor experiente. Segundo a Wikipédia, Televisão, de 1985, foi visto pela banda como um fracasso relativo e não recebeu bom trabalho de divulgação. No fim de 1985, o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes foram presos por porte de heroína, episódio que a Wikipédia e a Billboard apontam como influência direta no tom do disco seguinte. Arnaldo ficou 28 dias preso, segundo a Billboard.

O país estava em outro clima. A mesma Billboard descreve um momento de otimismo, com o Plano Cruzado lançado em fevereiro de 1986 e José Sarney como primeiro presidente civil em 21 anos. Cabeça Dinossauro saiu como contraponto crítico a essa euforia.

Para produzir, os Titãs chamaram Liminha, ex-baixista dos Mutantes, que na época dirigia a WEA e já tinha trabalhado com Gilberto Gil, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso. A relação começou com atrito. Segundo a Billboard, Marcelo Fromer comentou que havia fama de que Liminha descaracterizava o som das bandas, e Branco Mello lembrou que o produtor estranhou o visual do grupo. Mesmo assim, a banda valorizou a qualidade de captação dele, como mostra o trecho do livro A vida até parece uma festa publicado pela Rolling Stone Brasil. A ficha da Wikipédia credita Liminha como produtor, com Pena Schmidt e Vitor Farias na coprodução.

O disco foi gravado e mixado em cerca de um mês, em março e abril de 1986, no estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. A demo veio antes, gravada em apenas dois dias, em fevereiro de 1986, em um estúdio na Pompeia, bairro de São Paulo, segundo a Wikipédia. A primeira faixa gravada foi “AA UU” e a última, “O Que”. A Wikipédia conta que o vocal de “A Face do Destruidor” saiu em uma única tomada, sobre uma base tocada de trás para frente, e que Liminha improvisou a percussão da faixa-título usando paredes, chão e colunas do estúdio.

A faixa-título nasceu em uma turnê do disco anterior. Pelo relato do livro, Paulo Miklos, de ressaca, dedilhava o violão no fundo do ônibus quando Branco Mello acordou gritando “cabeça dinossauro”. Os dois montaram a frase sobre a melodia e Arnaldo Antunes entrou na brincadeira.

Os músicos são os próprios Titãs: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Charles Gavin na bateria, Marcelo Fromer na guitarra, Nando Reis no baixo e voz, Paulo Miklos, Sérgio Britto nos teclados e Tony Bellotto na guitarra solo. O único convidado listado é Repolho, nas castanholas de “Homem Primata”. A capa traz um esboço de Leonardo da Vinci, e foi uma das primeiras do rock brasileiro sem foto da banda.

Faixas de destaque

Cabeça Dinossauro

Abre o disco com a voz de Branco Mello. A percussão feita com os objetos do estúdio dá a ela um som seco e primitivo, bem de acordo com a promessa que Branco havia feito ao Estadão, de um rock mais cru. A Billboard Brasil descreve o conjunto do álbum como uma sonoridade “gorda”, com o baixo de Nando Reis e a bateria de Charles Gavin em primeiro plano.

AA UU

Foi o primeiro single e a primeira faixa gravada. A Rolling Stone Brasil conta que a música nasceu numa tarde na casa de Marcelo Fromer, num momento de descontração. A Wikipédia afirma que ela só se tornou sucesso depois que o clipe foi exibido no Fantástico. A voz é de Sérgio Britto, e a música foi escrita por ele e por Fromer.

Polícia

Escrita por Tony Bellotto com raiva, como protesto, segundo o relato do livro. A inspiração musical foi uma canção reggae, e foi preciso insistência do autor para ela entrar no disco. A Wikipédia lembra que a prisão de Bellotto inspirou a letra. Vale registrar também a regravação do Sepultura, que incluiu a faixa como bônus da versão brasileira de Chaos A.D.

Bichos Escrotos

Cantada por Paulo Miklos e apontada pela Billboard como um dos singles de rádio, num arranjo de funk. É a faixa que mais ficou na memória popular do disco, e foi lançada como single em 1987, segundo a Wikipédia.

Família

Reggae com voz de Nando Reis. Foi single em 1987 e, mais tarde, o grupo Molejo a transformou em samba, em 1998, segundo a Wikipédia. A troca de gênero mostra como a melodia aguenta mudanças de roupa.

O Que

A última a ser gravada e a mais longa, com 5 minutos e 38 segundos, com voz de Arnaldo Antunes. Segundo a Billboard, tem ritmos e batidas eletrônicas. A Wikipédia diz que ela e “Família” tiveram as mudanças mais significativas de arranjo durante as sessões.

Recepção da crítica

Na imprensa, a reação foi positiva. Alberto Villas, do jornal O Estado de S. Paulo, chamou o disco de “a grande surpresa do ano” e o descreveu como punk, nervoso e cheio de surpresas, segundo a Wikipédia. O AllMusic deu 4,5 de 5 estrelas ao álbum.

As rádios, a princípio, ignoraram o trabalho. Mesmo assim, ele gerou uma turnê nacional de cerca de quarenta shows até dezembro de 1986. Segundo a Wikipédia, Tony Bellotto apostou com Branco Mello que o álbum não venderia 100 mil cópias e perdeu: a marca veio em dezembro de 1986 e rendeu o primeiro disco de ouro da banda. A Wikipédia cita o Estadão, de 10 de dezembro de 1986, para as 100 mil cópias, a Enciclopédia Itaú Cultural para as 250 mil no primeiro aniversário e O Globo e o G1, de 2016, para as 700 mil. Não consultei essas matérias diretamente.

O prestígio continuou nas listas. A Wikipédia registra o 19º lugar entre os 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil, em 2007, e o 7º lugar em uma enquete de 2012 feita por Eldorado FM, Estadão e Caderno C2+Música. Em 2022, o disco apareceu entre os melhores dos últimos 40 anos em consulta do jornal O Globo a 25 especialistas. A Billboard acrescenta que, em 1997, a revista Showbizz o elegeu o melhor disco de pop e rock brasileiro de todos os tempos.

Legado

Charles Gavin, citado na Wikipédia, comparou a importância do disco para os Titãs à de A Night at the Opera para o Queen. Sérgio Britto o considera um dos melhores da banda. O álbum é visto como um dos mais importantes do rock brasileiro dos anos 1980, lançado no mesmo ano de Dois, da Legião Urbana, Vivendo e Não Aprendendo, do Ira!, e Selvagem?, dos Paralamas.

As regravações mostram o alcance do material: além do Sepultura e do Molejo, o Biquíni Cavadão regravou “Estado Violência” no álbum 80, de 2001, e os Paralamas citam trechos de “Polícia” em “Selvagem” e tocaram as duas músicas com os Titãs em um disco ao vivo conjunto.

Os Titãs voltaram ao disco várias vezes. Em 2012, tocaram o álbum na íntegra em shows registrados em Cabeça Dinossauro ao Vivo 2012, com edição deluxe que trouxe demos e “Vai pra Rua”. Em 2016 foram lançados um livro de contos e uma peça. A Billboard informa que, quarenta anos depois, o disco ganhou reedição em vinil pela série Clássicos em Vinil, da Polysom, e que a banda, hoje trio, excursiona com o repertório.

Como candidato ao título dos anos 1980, o argumento é de som e de contexto. É um disco curto, de 38 minutos, em que oito integrantes se revezam no microfone e cada um assume um tom diferente: raiva, ironia, humor, deboche. Ao mesmo tempo, funciona como retrato de um país que saía da ditadura e ainda não sabia o que fazer com a liberdade. Quem escuta hoje ouve a produção de Liminha ainda soando atual, com baixo e bateria na frente e guitarras sem enfeite.