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DISCO DA DÉCADA · 1980DOISLEGIÃO URBANA1986
Anos 1980

Dois

Legião Urbana · 1986 · EMI-Odeon

Faixas de destaque:

  • Tempo Perdido
  • Eduardo e Mônica
  • Quase Sem Querer
  • Índios
  • Fábrica
Votar nos anos 1980

Contexto e gravação

Dois é o segundo disco da Legião Urbana e saiu em 1986 pela EMI-Odeon. A data mais citada é 20 de julho. Depois do sucesso da estreia, Renato Russo queria fazer um álbum duplo chamado Mitologia e Intuição. A gravadora recusou a ideia, e o repertório caiu de vinte para doze faixas, segundo a Wikipédia. A Rolling Stone Brasil, em texto de Alexandre Matias de 2022, conta que o plano original tinha muitas canções conduzidas pelo violão e que Renato, obcecado pela história do rock, deixou a guitarra de lado para gravar músicas de apelo folk e mostrar aos colegas o som que queria.

O momento era de pressão. O guitarrista Dado Villa-Lobos descreveu Renato como acometido da “síndrome do segundo disco”, e o baterista Marcelo Bonfá chamou o trabalho de um desafio de verdade, por causa do prazo e da expectativa alta. Essas declarações constam da página da Wikipédia sobre o disco, que traz, desde julho de 2024, um aviso de que as fontes citadas não cobrem todo o texto. Por isso as falas valem como relato, não como registro oficial.

A Wikipédia em português dá a gravação entre fevereiro e abril de 1986, nos estúdios da EMI-Odeon, no Rio de Janeiro. A versão em inglês registra janeiro a março do mesmo ano e não cita estúdio. As duas páginas divergem em um mês nas datas, e este texto segue a versão em português, a única que informa o local. A produção ficou com Mayrton Bahia, que a gravadora designava para os artistas novos da casa. Renato Russo assina a produção de “Eduardo e Mônica”. A gravação usou 16 canais, e os instrumentos às vezes vazavam uns nos outros e precisaram ser separados à mão. A Rolling Stone Brasil diz que a produção foi bastante intencional, feita pela banda com Bahia.

A banda era formada por Renato Russo (voz, teclados e violão), Marcelo Bonfá (bateria, percussão e glockenspiel), Dado Villa-Lobos (guitarras e efeitos) e Renato Rocha (baixo e teclados). A Wikipédia registra que o grupo passou a aceitar efeitos de estúdio durante este disco e queria usar mais violão.

Nas letras, Renato disse ter se afastado de assuntos externos, como governo, política e poluição, para falar de relações emocionais e pessoais. O disco abre com “Daniel na Cova dos Leões”, cuja gravação começa com um rádio mal sintonizado tocando um trecho de “Será” e excertos do hino da Internacional Socialista. A capa, segundo a Rolling Stone Brasil, não existia na origem: o tom ocre que virou marca das edições seguintes era a cor do papelão da embalagem original. A Wikipédia menciona uma foto de um casal abraçado, de costas, de frente para o mar, assinada por Ico Ouro-Preto.

Faixas de destaque

Tempo Perdido

Já fazia parte dos shows antes de ser gravada, segundo a Wikipédia, e foi lançada como single promocional em junho de 1986. Dura pouco mais de cinco minutos e inspirou o título do filme Somos Tão Jovens. É uma das faixas mais longas do disco e uma das mais lembradas pelo público.

Eduardo e Mônica

Uma canção que conta a história de um casal, sem refrão. Isso fez dela um desafio para as rádios, como notam a Wikipédia e a imprensa. Mesmo assim virou sucesso e puxou as vendas do álbum. A Rolling Stone Brasil a coloca entre os hits imediatos do disco, ao lado de “Quase Sem Querer”.

Quase Sem Querer

Parceria de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha. Foi single em 1987. A Rolling Stone Brasil a cita como uma das canções que se tornaram sucesso de rádio de imediato. É um bom exemplo de como a banda cresceu em melodia sem perder a tensão.

Índios

Faixa de fim de disco, lançada como single em 1987. A Folha de S.Paulo, segundo a Wikipédia, criticou esta música ao mesmo tempo em que elogiou o disco como um todo. É um caso em que a divisão da crítica ajuda a entender o que o álbum tinha de ambicioso.

Fábrica

Junto com “Metrópole”, é uma das duas músicas que, segundo a Rolling Stone Brasil, mantêm a crueza do disco de estreia. O resto do álbum troca o punk e o pós-punk por uma tensão constante e pelo violão acústico em primeiro plano. “Fábrica” ganhou depois uma versão em espanhol da banda argentina Attaque 77, de acordo com a Wikipédia.

Recepção da crítica

As resenhas da época foram, em geral, positivas, segundo a Wikipédia. Na IstoÉ, Luís Antônio Giron chamou o álbum de um LP maduro. Na IstoÉ Senhor, Aponean Rodrigues escreveu que a banda abriu um espaço decisivo entre os melhores grupos nacionais. O Estado de S. Paulo disse que o disco tem mordida e, sob ela, substância. Na Folha de S.Paulo, Heinar Maracy descreveu um álbum denso, mas sem exagero, e criticou “Índios”, que lhe pareceu um poema posto em música à força. No Correio Braziliense, Paulo Pestana falou em obra-prima. A página da Wikipédia não informa as datas exatas dessas resenhas, só que são da época do lançamento, e eu não consultei as edições originais dos jornais.

Em retrospecto, Alexandre Matias, na Rolling Stone Brasil em 2022, escreve que o disco escapou da armadilha do segundo álbum, ampliou o espectro musical e o alcance popular da banda, que passou a ser a maior de sua geração. O AllMusic deu quatro de cinco estrelas.

O disco aparece em listas. Segundo a Wikipédia, ficou em 21º lugar entre os cem maiores discos brasileiros da Rolling Stone Brasil, em terceiro numa enquete de 2012 feita por Eldorado FM, portal do Estadão e Caderno C2+Música, e entre os melhores dos últimos 40 anos numa consulta do jornal O Globo a 25 especialistas, em 2022.

Em vendas, a Wikipédia afirma que foi o álbum mais vendido da banda, com mais de 1,5 milhão de cópias e certificação de diamante da Pro-Música Brasil. Para esse dado, a página cita uma reportagem do jornal O Povo, de janeiro de 2022, sobre a história do álbum.

Legado

Dois é a obra que fez a Legião Urbana sair do circuito do rock para ser a banda de uma geração. A Rolling Stone Brasil o apresenta como o passo decisivo para o status de ícone geracional e lembra que o grupo ajudou a colocar Brasília no mapa da cultura nacional. A mudança de som tem peso: o violão, a melodia e a narrativa passam à frente da guitarra distorcida.

O nome do disco também aparece em outros trabalhos. “Tempo Perdido” inspirou o título de um filme. “Fábrica” teve versão em espanhol, e outra música da banda, “Perfeição”, foi gravada em espanhol pelo mesmo grupo argentino, de acordo com a Wikipédia.

Como candidato a melhor álbum dos anos 1980, Dois tem um trunfo difícil de bater: reúne a canção que virou história de amor de uma geração, “Eduardo e Mônica”, e uma abertura como “Daniel na Cova dos Leões”, que já avisa que o disco é outro. Tem também um som que se afastou do primeiro álbum sem romper com ele. Lançado no mesmo ano de Cabeça Dinossauro e Selvagem?, é, pelos números da Wikipédia, o mais vendido da própria banda.

Quem ouve hoje percebe que o álbum envelheceu bem porque as histórias são de gente comum. Um casal que não combina, uma fábrica, um tempo que passou. O arranjo guarda espaço para o violão e para a voz de Renato, e é isso que mantém o disco vivo para quem o descobre agora.